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Aonde estão os vagalumes?

Atualizado: 19 de fev.

O céu anda sem graça; as noites sem cor. O ar é outro...o vento passou a soprar em um outro tom. A Natureza do nosso planeta não é mais a mesma e nem a nossa natureza humana. 


Essa semana comecei a assistir com a minha filha uma antiga série de TV que foi muito famosa nos anos 2000, impressionante como a música de abertura na hora me ativa gatilhos e memórias que eu nem sabia que tinha. Fui subtamente invadida por uma saudade avassaladora do meu quarto com paredes amarelo-claro, cortinas rosas feitas sob medida e minha mesinha de computador com internet discada. Me lembrei então de como a vida era fácil e genuinamente feliz quando eu trocava papéis de carta no recreio e a maior preocupação era encontrar uma roupa para a social na casa da amiga no sábado. 


Não cresci em uma família riquíssima, assim como a maioria dos brasileiros, meu pai trabalhava muito para não deixar nos faltar nada dentro de casa. Não viajamos para fora do país, por exemplo. Não vivíamos no luxo, nossa casa era simples, mas nossas contas estavam pagas e tínhamos comida na mesa. E isso era o ápice da felicidade. Não tenho registros de ter ouvido meu pai se lamentar alguma vez por não ter conseguido nos comprar o 4º par de um tênis da marca XXX caríssimo que "todo mundo tinha". Em primeiro lugar porque não tínhamos acesso ao que o Fulano de Tal estava usando para ir para a escola dele no país dele do outro lado do mundo, então a nossa comparação não era com pessoas que nunca nem sequer iríamos ver na vida, e em segundo porque crescíamos, de um modo geral, dentro das nossas realidades. Nos nossos círculos sociais. É claro que fomos influenciados pela mídia, anúncios e itens de desejo da época, mas sinceramente, não me lembro de ver ninguém adoecendo por não ter todos esses itens.


A simplicidade de ser, de estar entre os nossos, de pertencer, do AGORA, era justamente a magia de tudo. Que se perdeu no tecido do Tempo.


A lembrança mais dolorida que essa música de abertura me ativou, foi a de chegar em casa e encontrar meu pai fazendo pizza-pão com vitamina de banana para o lanche. E depois nos sentarmos no sofá para assistirmos Arquivo X. Como algo tão trivial foi capaz de dilacerar o meu coração com tanta violência? Lembro dos meus aniversários e Natais e presentes, mas realmente não são as coisas, nem seus preços, que me fazem sentir tanto amor e gratidão quando olho para trás. Não lembro de algum item que não pude ter...minha memória registrou tudo de bom que eu tive e que nunca mais poderei ter. Nem eu, nem você, estimado leitor. Nenhum de nós. Porque aquele mundo...não existe mais.


Me lembrei de como gostava de sentar com a minha mãe na varanda e ficar contando vagalumes, enquanto nosso cachorrinho tentava, em vão, alcançá-los. Dos brigadeiros enrolados à mão para o parabéns na escola. Das minhas amadas tias (professoras) que me alfabetizaram. Do ritual sagrado que era esperar as revistas chegarem e daí passar 1 hora na banca escolhendo quais levar.


Quando eu poderia imaginar, no auge dos meus 14 ou 15 anos, que um anoitecer comum de verão, só mais "um", sentada na calçada da rua com os meus melhores amigos, seria o maior desejo da minha vida décadas depois?


Eu daria qualquer coisa para poder reviver 1 dia da minha monótona e espetacular rotina lá de 1999...de reaver essa sensação perdida e única de que o mundo está em paz.

Sem celular, sem a necessidade de postar o que quer que fosse. Sem ter que performar e impressionar os outros nessa insana competição de EGOS em que a vida se tornou. Com TEMPO para viver, para conversar com as pessoas, para olhar nos olhos de quem se amava, para tirar um cochilo depois do almoço, para ter meu pai chegando com o pãozinho fresco às 6 da tarde.

Como eu gostaria de poder voltar pra debaixo da escada do meu colégio, onde combinávamos a programação do fim de semana, numa terça-feira qualquer. Como eu queria que algum amigo meu batesse no portão da minha casa sem avisar e a minha mãe tivesse lá para convidá-lo para almoçar. Como eu gostaria de ter uma CASA e não um minúsculo apartamento "aesthetic" e "clean" sem cor, sem espaço, sem possibilidade de comportar vidas, pois VIDAS incluem bagunças, pertences, memórias; GENTE. Amigos, visitas, conversas no meio fio, sem hora para chegar e terminar. Com cheiro de roupa secando no varal ao Sol e com PRESENÇA física, mental e emocional de quem amávamos.


E o mais dolorido de tudo: como eu gostaria de que as minhas filhas tivessem vivido isso.

Tentei, ao máximo que pude, promover uma infância como a minha e tive a pretensão de querer criar memórias tão boas quanto as minhas, mas realmente são tempos estranhos. A amizade, os singelos momentos do cotidiano, as trocas energéticas, o aprendizado empírico, o Amor, a presença, perderam o valor. Foram substituídos por momentos apoteóticos que PRECISAM ser postados ao vivo, por personagens criados para impressionar quem nem nos conhece, pela necessidade de rentabilizar e performar o tempo inteiro, em uma era que romantiza exaustão, solidão e usa "correria" como status social. Eu me sinto inadequada e desconfortável nesse cenário atual.


Aonde estão os vagalumes?! Aonde estamos nós? Aonde foi parar tudo de bom?


Bruna Lunevie

 
 
 

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