As infinitas versões de nós dois
- Bruna Stamato
- 27 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

Eu te amei desde a primeira.
Desde a imatura e sonhadora versão sua, que encontrou a ingênua, sedenta e impulsiva versão minha. Resultando provavelmente, em uma das maiores e mais loucas paixões que esse mundo já testemunhou. Te amei na próxima versão dessa...inseguro, com medo do futuro, cansado, mas, aos olhos da minha versão perdida, idealizadora e dona da verdade absoluta, você continuava estranhamente apaixonante.
E mal sabia aquela eu, que assim se seguiria por toda a vida.
Nas piores, mais violentas e raivosas versões de nós dois. Nas mais exaustas de brigar, nas mais pacíficas que pudemos ser; nas mais insanas, nas mais burras.
Eu segui te amando em todas as minhas versões anacrônicas, porque muitas dessas versões só existiram porque você existia. Muitas dessas versões não souberam continuar sem você. E a atual também continua se perguntando como vai conseguir.
Eu te amei nas minhas versões mais incríveis, naquelas onde tudo parecia perfeito, mas as minhas versões sem você sempre têm esse buraco no peito. Te amei nas minhas versões mais horríveis também, nas mais ciumentas e iracíveis. Enquanto eu lutava desesperadamente comigo para que uma versão limpa, sem resquícios de você, pudesse nascer. E enquanto a minha versão inteira, livre e dona de mim, perdia o duelo.
Eu te amei até quando não era mais humanamente possível que algum tipo de amor continuasse vivo. E então, foi essa minha versão que descobriu que o nosso amor por você não era normal, não era mortal, nem deveria ser humano...e assim nasceu a minha versão mais conformada, a que finalmente jogou a toalha e aceitou que não podia se fazer mais nada. Que esse sentimento estaria, para todo sempre, presente. A cada nova versão que pudesse surgir. Em centenas, em milhares, em infinitas versões que pudessem existir.
Eu te amei na sua versão mais vulnerável e essa foi a versão que eu mais amei. Eu te amei até na sua versão feliz ao lado de outro alguém...porque essa versão minha já havia te perdoado e queria te ver bem.
Mas eu te amei no ego também, na nossa versão mais possessiva e egoísta, naquela autodestrutiva, que competia e brigava feito inimigos mortais, porque essa versão era a mais boba de todas, porque ela acreditou que poderia existir um vencedor enquanto se matava a melhor parte de si.
Que é o que sempre fomos. Do nosso jeito torto. Nessas nossas versões que insistem em se desencontrar.
Enquanto eu estava lá...a 10 mil anos luz de você e insistia em te puxar. Enquanto você queria ir e eu resistia para ficar. Enquanto eu ia para o mais longe possível e você permanceia. Enquanto eu te via, depois de tanto tempo e ria, de mim mesma, porque pro meu coração, haviam se passado não mais de 20 minutos. Eu te amei nas versões mais doloridas de mim, em cada adeus que precisei te dar. Em cada vez que te vi ir. No adeus então...meu Deus! Eu te amei muito, muito mais do que eu podia suportar.
Mas todos os adeus que te dei foram do coração pra fora, na esperança, num último ato de desespero, pra ver se uma versão mais forte tua nascia. Uma versão que quisesse por nós lutar.
E vai saber, desde quando nossas almas se procuram sem conseguirem de fato, se encontrar. A quantas eras estamos a nos perder, enquanto o que mais queremos é justamente ficar. Onde seguimos procurando as nossas versões que irão estar compatíveis; no mesmo tempo e espaço, na mesma sincronia e ritmo e olhando para o mesmo lugar.
Eu só sei que não existe mais em mim, a mínima possibilidade de encontrar uma versão minha que seja capaz de suportar mais um adeus. A minha versão de hoje é inconformada. É rebelde, é talvez a mais exasperada, a mais teimosa, e também mais calada. Porque essa minha versão já não leva mais fé no poder das palavras.
E a única certeza que tenho é essa: de que a minha próxima versão sempre será ainda mais absurda e loucamente apaixonada por você. Onde quer que você esteja; o que quer que você faça.
Essa minha versão de hoje já não tem mais muita esperança, coitada. Não tem mais força nenhuma. Ela aguarda ansiosa pelas próximas versões de nós dois; quem sabe alguma delas não vem apaziguada, desperta e consciente de que não temos, nunca tivemos e nunca sequer iremos ter a menor moral para bancarmos viver longe um do outro. Vou torcer. Vou torcer com todas as forças, para que uma próxima versão nossa seja menos orgulhosa, mais parceira e que ela tenha enfim compreendido que embora existam infinitas versões de nós, nosso tempo não é infinito. Para que não tenhamos dado, mais uma vez, o amor como perdido.
Eu amei tanto as tuas versões erradas...e eu queria muito amar a certa. Essa seria, sem sombra de dúvida, a melhor versão de mim.
Um dia, quem sabe...em algum lugar na eternidade.
Bruna Lunevie
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